sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Capítulo 1

 Lá estava ela, longe de todos. Tentando desesperadamente acordar daquele maldito pesadelo. Sentada em um tronco de árvore e saboreando seu cereal vencido há quatro meses. Claro que, em tempos como aquele, estava sempre alerta, olhando para os lados a cada um minuto. Os únicos pensamentos que passavam por sua cabeça eram o medo, o frio e a vontade de comer algo que não tivera passado do prazo de validade. Mas, mesmo assim, aquele cereal se tornara bom, comparado a outras coisas que tivera de comer.
 Sua pele já não era a mesma de antes. Há pelo menos três meses, ela possuíra a pele de uma linda jovem de dezessete anos, mas agora, aparentava ter três anos a mais. De qualquer modo, não deixara de ser uma jovem bonita, com delicados cachos castanhos e algumas sardas no nariz e bochechas. Porém, as marcas do medo e de sua insônia não a perdoaram. Agora, possuía olheiras e bolsas abaixo dos olhos e, é claro, uma expressão séria e humor reduzido.
 Mesmo que estivesse com um casaco revestido de lã, calças quentes e botas, passava por realmente muito frio. Nesse momento, pensava ela, seu namorado fazia falta. Se estivesse vivo, estaria contando-lhe uma piada. Tentando arrancar um sorriso de sua namorada. Mas ele não estava ali. Virou jantar daquelas malditas pragas, e ela viu todo o ocorrido.
 Em meio a estes pensamentos, levara um susto ao notar a presença de alguém ao seu lado. Culpou-se por voar em tantos pensamentos horríveis a ponto de não notar a presença de alguém. E se fosse uma daquelas coisas? 
 - Joseph! - exclamou ela. - Nunca mais faça isso!
 Joseph tornara-se seu melhor amigo há pelo menos cinco meses, quando todos ainda estavam desesperados, procurando por um refúgio seguro.
 - Desculpe - disse ele. - Não queria atrapalhar seu devaneio.
 - Tudo bem, mas nunca mais faça isso, por favor.
 - Ely - Joseph começou - , não acha estranho? Tudo acabar em tão pouco tempo?
 - Já conversamos sobre isso - a irritação era visível na expressão de Ely. - Vê se para! Ficarmos voltando nesse assunto dezenas de vezes só vai piorar as coisas.
 - Não há muito para conversarmos, então sempre me vem à cabeça esse tipo de pensamentos - Joseph possuía uma tristeza evidente em seu olhar. - Não dá para simplesmente fingir que nada disso está acontecendo. Em cinco meses convivendo juntos, estou cansado de conversar sobre o tempo ou coisas do tipo - agora possuía uma expressão irritada. 
 - Para falar a verdade - Ely começou - , eu estava pensando sobre isso tudo também. Foi tudo tão rápido. O tempo está passando tão rápido. 
 - Tivemos menos de dois meses para fazermos entrar em nossas cabeças sobre todos que gostávamos estarem mortos.
 - Eu ainda tenho esperanças - Ely suspirou. - Quem sabe elas estejam vivas? Estejam a salvo em um refúgio seguro, deitadas e quentinhas com seus cobertores? 
 Através dos óculos de Joseph, percebera-se que uma profunda tristeza o consumira. Logo afastou-se de Ely, deixando-a sozinha com seus pensamentos perturbadores. Joseph não queria ver a amiga com falsas esperanças e se decepcionando com as respostas de suas perguntas.


 - Ei, molengas! Tá na hora de botar o pé na estrada! - gritou Tony, o líder do grupo.
 Ely arrumou suas poucas coisas e colocou sua mochila nos ombros.
 Logo o pequeno grupo de doze pessoas iniciara sua longa caminhada à procura de um abrigo seguro e, quem sabe, alguns suprimentos. Ely diminuiu o passo para ficar ao lado de Joseph, que estava logo atrás.
 - Só estou esperando conseguir suprimentos e vou ir para bem longe dessa gente - disse ela sem ânimo. 
 - Ely, você não vai sobreviver um dia sozinha e sem rumo! - protestou Joseph.
 - Vou estar sozinha, mas sem rumo não.
 - Você não está pensando em ir para Washington sozinha, não é? - perguntou ele espantado. Depois de uma longa pausa, continuou. - Mesmo que tenha um carro, você vai levar uns três ou quatro dias para chegar lá! Talvez mais! E se um imprevisto acontecer!?
 - Fale baixo! - protestou Ely em um sussurro. - Quanto mais tempo demorar com o grupo, mais tempo vou demorar para chegar em Washington. Estamos indo na direção contrária! Preciso me apressar.
 - Nem pensar! Eu vou junto! - protestou Joseph. - Você só está sendo egoísta. Na verdade, sei que morre de medo daquelas coisas!
 - Você tem certeza de que quer fazer isso? - perguntou ela com esperança no olhar.
 - Claro! Prefiro ir com você e fazer algo pela vida. É mesmo uma opção bem melhor do que andar sem rumo por aí com esse bando de babacas. Talvez nunca mais nos víssemos se você partisse.
 Ely sorriu. No fundo, ela não queria ficar sozinha, e muito menos deixar o melhor amigo para trás. Com a pouca experiência que tinha, seria mesmo melhor que estivesse acompanhada. Nem mesmo Ely sabia de onde surgira tal acesso de coragem. Ela realmente sabia que era uma menina fisicamente fraca e medrosa. De qualquer modo, ela seguiria seu caminho. E com seu melhor amigo.
 - Tudo bem - ela disse sorrindo. - Vamos nos preparando então. 
 E juntos seguiram pela estrada com o grupo.

2 comentários:

  1. estou começando a gostar da historia ,muito interessante e bem criativa com essa sua criatividade vc abre portas, quem sabe um dia tu pode se transformar em uma escritora tão boa quando a escritora do Harry Potter , com esse potencial que vc tem, rapidinho vc chega lá ,com certeza eu vou ser seu fã ,vou querer ser um dos primeiros a comprar seus livros .Assinado teu amigo Henry aquele que tu pode contar a qualquer hora que precise

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  2. Valeu, Henry! Muito obrigado pelo comentário incentivador. São esses comentários que me fazem querer continuar escrevendo! Logo posto mais capítulos. Obrigado pelo carinho!

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