Depois de uma hora andando pela estrada, em busca de um local seguro para ficarem, pararam para tomar água e descansarem um pouco. Neste trecho da estrada, haviam alguns carros consideravelmente amassados e com pneus furados.
Ely tirara sua garrafa de água de sua mochila e sentara-se no capô do carro mais próximo para descansar.
- Isso é engraçado, sabe? - comentou Joseph se aproximando. - Andar sem rumo pela estrada.
- Me sinto uma inútil - disse Ely. - Eu já poderia ter partido, só preciso de suprimentos.
- Eu não, nós - disse Joseph, com uma séria expressão e uma pontada de preocupação no olhar.
Apesar da aparente coragem, Ely tinha muito medo, mas dizia frases que demonstravam coragem impulsivamente. Ely pensava que seu maior medo, na verdade, era ficar sozinha. Tantas coisas horríveis aconteceram e, em meio àquilo tudo, ela tinha algo pelo qual lutar. Sabia disso.
Via-se à distância um pequeno mercado com telhas quebradas. As paredes estavam consideravelmente sujas e a tinta do letreiro apagando-se com a obra do tempo. Tony notara e, em seguida, gritou para o grupo:
- Ei! Acho que é nosso dia de sorte! - soltou uma risada grotesca, apertou as alças da mochila contra os ombros e correu em direção ao mercado. Logo o grupo foi atrás do líder, enquanto Ely e Joseph ficaram para trás.
- É a nossa chance de sair de perto deles! - disse Joseph em alto tom de voz. Ele já ia se preparando quando Ely interrompeu:
- Não! - ela negou. - Vamos segui-los até o mercado, pegar alguns suprimentos sem sermos notados e, quando tivermos a oportunidade, vamos vazar pra bem longe desses panacas!
- Boa ideia - concordou Joseph, e os dois seguiram para o mercado.
Tony estava à porta do mercado, planejando com o grupo uma maneira de se defenderem, caso houvesse um imprevisto.
- Quando eles chegarem perto - se ao menos tiver algum deles - , deem com o primeiro primeiro pedaço de pau que acharem no chão no meio da cabeça deles! Vamos lá! - e com um um forte chute, escancarou violentamente a porta do mercado que, com um estrondo, chocou-se contra a parede. Tudo estava silencioso. Nenhum sinal deles.
Tony deu um passo à frente e, no mesmo momento, ouviu-se um ruído vindo do depósito.
- É um deles! - disse Tara, com um tom de voz exageradamente alto e trêmulo. Tara era uma jovem de aparência delicada, com longos cachos negros e olhos escuros. Com certeza, era a pessoa mais amedrontada do grupo e, por esse motivo, Ely não simpatizava muito com ela. Não que Ely não fosse medrosa, mas não era o tipo de pessoa que gostava de fazer escândalo.
Um dos garotos do grupo - Jonathan, um jovem de cabelos negros, cacheados e notavelmente sujos - , pegou uma garrafa de vidro e a quebrou na prateleira mais próxima, para usá-la como arma se fosse preciso. O som alto do vidro quebrando fez com que Ely desse um salto.
- Vocês são muito burros! - disse Zoe irritada - uma jovem de cabelos loiros e bem tratados, apesar de tais circunstâncias. - Se fosse mais de um deles, estariam fazendo muito barulho com a nossa chegada. Talvez seja um recém infectado.
- Tem razão, loirinha - Tony disse. - Deixem comigo. - Pegou um dos pedaços de madeira solta da prateleira mais próxima e encaminhou-se para a porta do depósito.
Todos pararam ao ouvirem um novo som vindo de lá. Sons que pareciam um choro - um murmúrio baixo - , vinham do que Ely pensava ser uma mulher no interior do depósito. Uma mulher aparentemente sofrendo.
- Vai logo! - gritou Zoe impaciente para Tony.
Ele colocou a mão na maçaneta da porta e lentamente a girou. Ao abrir a porta, aos poucos a luz fraca do mercado iluminava o interior do escuro depósito. Lá dentro, encontrava-se uma mulher de cabelos sebosos e desgrenhados, que estava de costas para eles, chorando com as mãos cobrindo seu rosto. Tony se aproximava lentamente em direção à mulher, com um dos braços estendidos para tocar seu ombro. Subitamente, ela virou-se para o grupo. Estava com o rosto ensanguentado e cobria algo sobre seu queixo. Ela gritou. Um som horrível que torturou os ouvidos dos ali presentes. Logo a mulher correu em direção a eles. Jonathan - agora com uma notável expressão de assombro - , desviou-se da mulher que parecia querer agarrá-lo. Mas ela não o fez. Ao invés disso, correu rapidamente, com a cabeça abaixada e a bateu fortemente contra a parede à frente. Rapidamente, a mulher tombou com o corpo encolhido para o lado. Sangue escorrendo sobre seu rosto, e as mãos ainda cobrindo seu queixo. Todos ficaram imóveis ao assistir a cena.
A mulher suicidara-se.

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