Tentava desesperadamente tirar a venda dos olhos, porém não teve sucesso. Ficou calada quando ouviu vozes, aparentemente um andar acima de onde ela estava. Subitamente, ela parou de se mexer e, apenas nesse momento, percebeu a fetidez do local. Um odor bolorento invadiu suas narinas, mas tentava não se concentrar nisso. Precisava ouvir o que era dito.
- Ah, cara... tomara que de certo... - a voz de um homem era audível à distância.
- Tem que dar... não vamos fazer isso por nada... - outra voz masculina, porém um tanto mais perto.
Ely ficava cada vez mais curiosa.
Tudo ficou em silêncio novamente. Ely estacou, afim de ouvir algo, mas nada era audível. Ela deu um salto ao ouvir sons de passos descendo escadas - provavelmente estava em um porão. A porta do local fora aberta. Passos pesados se aproximavam. Ouviu-se um leve estalido e logo o local fora invadido por uma luz tênue. A pessoa parou à frente de Ely - ela sentia sua respiração. Sua venda fora tirada. Ela semicerrou os olhos, os acostumando novamente com a luz, para revelar o rosto de quem estava à sua frente.
- Está com fome? - perguntou uma voz grave e masculina. A mesma que Ely ouvira anteriormente. - Não temos nada muito bom. Tudo já passou do prazo de validade, mas tenho que te manter viva.
Ely finalmente conseguira enxergar o homem. Ele era bonito. Com cabelos negros - um tanto compridos - jogados para trás, barba por fazer e, o que mais chamava atenção: seus olhos. Olhos negros - como uma noite de eclipse - , porém seu brilho era radiante.
Ele arrancara a fita que cobria os lábios de Ely, e finalmente ela conseguiu falar:
- O que vocês querem comigo? - ela perguntou, um tanto calma, porém o pânico era constante.
- Primeiro, vamos deixar bem claro: eu não queria fazer isso, mas é o único jeito que eu tenho de sobreviver e não levar uma surra desses caras. Eu estou cumprindo meu dever, quero que saiba disso. Só mais uma coisa que você tem que saber: meu único objetivo é te manter viva, por ora. Não posso mais dar nenhuma informação, lamento.
Ely sentia o sangue subindo em sua cabeça, porém, de qualquer modo, se impressionou com o modo delicado que o homem tinha de pronunciar frases tão desafiadoras.
- Por favor - ela pedia, agora sem esconder o pânico e o ódio. - Eu preciso saber... preciso saber o que vão fazer comigo. Você não gostaria de ser sequestrado e não saber, ao menos, qual seria o seu destino, não é?
O homem - que antes estava agachado à frente de Ely - se levantara e se encaminhava lentamente para um canto do porão. Ele mexia em algo acima de uma velha mesa de madeira. Ely apenas observava - não tinha mais o que fazer, nem como se mexer.
Ele parou novamente à sua frente, deixou ali uma tigela com um conteúdo que parecia ser uma sopa nada convidativa.
- Você precisa se alimentar - ele disse, com uma certa tristeza no olhar.
- Não vou comer nada até você me dizer o que está acontecendo - Ely desafiou.
- É o seguinte: eu vou desamarrar você. Você vai comer e depois vai ficar quietinha, okay?
- Não! - ela aumentou o tom de voz - Não vou fazer nada que você mandar, até que me conte o que está acontecendo!
- Tudo bem... você tem sorte que eu sou um cara legal. Vou lhe contar o que está acontecendo... - o homem a olhou profundamente, como se estivesse em busca de uma expressão surpresa, mas Ely continuou intacta. Como não teve nenhuma reação, ele continuou:
- Daqui a um tempo... - ele fez uma pausa dramática - eles vão dar pedaços do seu corpo para o nosso amiguinho infectado.

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