sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Capítulo 7

 - Onde você conseguiu isso? - perguntou Ely incrédula.
- Lembra do último infectado que vimos morto em Salt Lake City? - Lewis perguntou. Seu olhar era penetrante, parecia que nunca iria piscar. Ely mantinha a seriedade, apesar do profundo medo. - Pois é - ele continuou. - Se vocês, fracotes, não tivessem tanto medo de chegar perto de um infectado, achariam coisas bem interessantes nos bolsos deles - disse girando a arma para que Ely a admirasse.
- Você é muito nojento - Ely disse calmamente.
- Cale essa boca! - gritou ferozmente. Logo após, acalmou-se subitamente e continuou a provocar. - Experimente pegar alguma coisa, qualquer coisa, e não dividir, e eu juro que dou um tiro no meio de sua cabeça.
Ely sentia muito medo. Sabia que Lewis estava louco. De qualquer modo, ela continuou:
- Sério? - debochou. - E quem você pensa que é para apontar uma arma para minha cabeça e dizer que vai me matar?
- Sua... - ele não continuou. Ao invés disso, destravou a arma e estava prestes a atirar, quando um imprevisto aconteceu.
 Tudo ocorreu com extrema velocidade, Ely mal conseguira acompanhar. No momento em que Lewis iria apertar o gatilho, Tony surgiu de trás de uma árvore e, com uma faca, atingiu a parte de trás do crânio de Lewis. Este, logo jazia inerte no chão. Tony olhava profundamente para Ely, com um notável rancor na expressão.
- Infectado - disse ele calmamente. Tony virou-se e se afastou sem dizer mais nada.
- Como você sabe? - Ely perguntou, mas não teve resposta.
 Vários pensamentos perturbavam Ely à noite. Passara o resto do dia com Joseph, que gemia e se contorcia de dor. O coração de Ely quebrava cada vez mais ao presenciar aquela cena. Agora, estava novamente deitada com seu cobertor, pensando sobre seu maçante dia. Ninguém se encontrava em condições de continuar - todos estavam em choque com o ocorrido a Joseph - . Mesmo em seis meses de sobrevivência, poucas pessoas do grupo presenciaram uma cena de tamanha violência. Depois que a praga tomou conta do mundo, a vida das pessoas pode-se resumir em viajar a procura de um refúgio seguro - ninguém sabia o que os infectados poderiam fazer - . Todas as cidades - nas quais o grupo se deslocara - encontravam-se desertas, com exceção dos poucos infectados e mortos pelo chão.
Havia algo que a todos apavoravam a noite: sons horríveis - vindos à distância - , de centenas de infectados gemendo e chorando. Pareciam mais ativos à noite. Eles estavam perto agora, vagando pelas ruas. Recém infectados não representavam grande perigo, mas eram extremamente aterrorizantes. Tinham de sair logo daquele mercado, Ely pensava, mas Joseph encontrava-se muito ferido, e ela estaria ali para ajudá-lo.
 Ely, no momento, apenas se preocupava com os sons. Sons que estavam cada vez mais perto.
 O dia seguinte transcorreu lentamente. Ely e Zoe cuidavam dos ferimentos de Joseph e o ajudavam a comer, enquanto o resto do grupo tentava puxar gasolina dos carros para usarem em um deles.  Quando todos se reuniram para comerem alguns enlatados, o clima ficara realmente tenso. Tony não conversara com ninguém durante o dia todo. Jonathan quebrou o silêncio:
 - Acho que progredimos hoje - disse ele, com um meio sorriso no rosto.
  - Conseguimos gasolina o suficiente para seguirmos até Canon City.
 Todos o observaram de cabeça baixa, e logo desviaram os olhares novamente para seus enlatados. O céu escurecera rapidamente. O interior do mercado era pusilanimemente iluminado pela luz da lua, que penetrava pelos vãos entre as telhas quebradas.
 Todos mantinham-se em silêncio, quando barulhos altos e tortuosos invadiram a calma temporária.
Ely e Zoe correram para o exterior no mercado e paralisaram-se com o que viram: dezenas de infectados se aproximavam rapidamente, gemendo e gritando.
 - Ah não. Não, não, não, não não - Zoe disse repetidamente. - Estamos todos ferrados! Esses são os infectados de grau avançado!

Capítulo 6

 - Acha que não vai dividir os suprimentos com o grupo? - gritava Tony, que já estava com o rosto escarlate de tanta raiva. - Levanta, seu fracote! - atingiu Joseph com mais um chute.
 - Para! Vai matar ele! - gritava Zoe repetidamente. 
 Todos gritavam aterrorizados. Tony desferiu mais alguns chutes e parou. Ofegante, saiu do mercado, deixando todos boquiabertos.
 Ely correu até Joseph e se agachou junto a ele.
 - Meu Deus! - exclamou ela. - O que ele fez com você? - Ely caíra em lágrimas. 
 - Ele bem que mereceu, sabe? - disse Lewis. Ele era um garoto loiro, bonito, porém sempre possuía uma amarga expressão no rosto. O rancor era visível em seus olhos azuis vivos. - Quer pegar comida e não dividir com o grupo? Isso não se faz - sorriu amargamente.
 Ely o perfurava com o olhar. Ódio corria por suas veias. Ela tinha vontade de levantar e espancar Lewis, mas não seria capaz. 
 - Deixa que eu cuido dele - disse Zoe calmamente e com preocupação no olhar. - Eu tenho alguns curativos e sei o que fazer. Vá pegar um ar.
 Ely queria recusar a oferta e ficar com seu amigo, mas estava sem forças e não sabia o que fazer. Encaminhou-se rapidamente para fora do mercado, sem dizer qualquer palavra. Estava em choque. Ver seu melhor amigo ser espancado era como levar uma facada no coração.

 Passaram-se quinze minutos. Ely contemplava as folhas mortas de uma árvore próxima ao mercado.
 - Se lamentando por causa do seu namoradinho? - perguntou Lewis debochando, que se aproximara sem Ely perceber. Esta deu um salto, mas não se virou para ele. 
 - Foi você, não foi? - perguntou Ely amargamente. - Foi você que nos dedurou. 
 - Como pode afirmar isso? Mas é verdade, fui eu. Está pensando que vai pegar suprimentos e não vai dividir? Acha que é só você que está sobrevivendo? 
 - Você é louco - disse Ely lentamente, virando-se de frente à ele.
 - Me diga, quem não é louco em tempos como esses?
 - Me diga você - Ely aumentara o tom de voz desafiadoramente - , se eu não quiser dividir os suprimentos que achar, o que você acha que vai fazer? 
 - Vou furar sua cabeça - disse Lewis calmamente.
 - Sério? - Ely debochou. - Com que arma?
 - Com essa - Lewis sacou uma pistola da parte de trás do cinto e a mirou em direção à Ely. 
 Ela ficou imóvel.

Capítulo 5

 Quando Ely acordou no dia seguinte, todos já estavam de pé, preparando-se para mais um longo e tortuoso dia. O céu estava nublado, com enormes nuvens cinzas escuras. Uma fraca luz iluminava o interior do mercado - tanto que Ely semicerrava seus olhos para poder enxergar melhor. Joseph se aproximava carregando algo que Ely não conseguia identificar - seus olhos ainda não se acostumaram com o misto de claridade e escuridão. 
 - Bom dia - disse ele. - Aqui, pegue um - e atirou para Ely uma das coisas que segurava. Logo sentou-se ao seu lado. 
 Ely analisou o produto. Era um pequeno pacote de biscoitos, como os que sua mãe fazia. Ao pensar nisso, desmoronou em uma profunda tristeza. 
 - Não vai comer? - perguntou Joseph impaciente.
 - Vou - disse Ely, acordando de seu devaneio. - Eu só estava... 
 Ela não completou a frase. Apenas abriu a embalagem e comeu o primeiro biscoito. Uma explosão de sabores a dominou ao dar a primeira mordida. Há quanto tempo não comia algo tão bom? Nem ela lembrava, apenas apreciava o curto momento de prazer. Logo esvaziara completamente o pacote. 
 - Você tem sorte - comentou Joseph, olhando para Ely. - Esse é um dos poucos pacotes que sobraram aqui. Quando Tony estava distraído, peguei os únicos quatro pacotes. Dei os outros dois para Zoe e Jonathan. Eles são legais. 
 - É - Ely concordou enquanto se levantava. - Bem, está na hora de agir.

 Ely e Joseph seguiram em direções opostas do mercado. Ely procurava em cada prateleira algo que pudesse lhe ser útil. Primeiro, foi até a seção de higiene. Pegou alguns rolos de papel higiênico - não muitos, pois precisava de espaço na mochila para os alimentos - , alguns pacotes de absorventes e dois sabonetes. Logo após, partiu para outra seção. 
 A seção na qual haviam alimentos embalados estava quase vazia. Ely pegava alguns pequenos pacotes de biscoitos quando ouviu um estrondo. Ela correu para o local de origem do som e ficou paralisada com o que viu. 
 Joseph estava caído junto a prateleiras quebradas. Sangue cobria seu rosto. Gemia de dor. Alguém estava à sua frente, gritando e chutando-o. Várias pessoas gritavam, choravam e pediam para que o homem parasse.
 Era Tony. Ele descobrira o que Joseph pretendia fazer.

Capítulo 4

  Memórias de Ely - parte I

 Ela e sua mãe estavam fazendo biscoitos e conversando descontraidamente.
 - Eu quero provar um! - disse a irmã de Ely, que se aproximara correndo. Acidentalmente, ela escorrega na mesa e derruba uma tigela vazia no chão. Por sorte, pensou Ely, a tigela era de plástico.
 - Molly! Comporte-se! - advertiu a Sra. Cooper, jogando alguns fios de cabelos -  que soltaram-se de seu coque - para trás. - Os biscoitos ainda não estão prontos. Vá fazer suas lições de casa! Ely, deixe que assumo a tarefa sozinha.
 Ely encaminhou-se para seu quarto. Era um quarto bagunçado, com diversos pôsteres cobrindo as paredes - um típico quarto de uma garota de quinze anos. 
 Passara-se meia hora. Ely ouvia músicas com seus fones de ouvido e folheava uma revista sobre sua banda favorita. Estava entediada, girando sua cadeira para lá e para cá. Essas, pensava ela, eram as férias mais tediosas de sua vida. Estava olhando para um ponto fixo no chão, quando de repente, percebeu uma movimentação do lado de fora de sua casa. Tirou os fones e colocou-os na escrivaninha à sua frente. Levantou-se e se encaminhou para a janela do seu quarto. Então, ela viu uma cena de cortar o coração. Logo afogou-se com suas próprias lágrimas. Havia uma viatura policial estacionada à frente de sua casa. Um policial conhecido dava a notícia à sua mãe, que jogara-se no chão e gritava. Molly chorava ao seu lado.
 Ely sabia que sua família nunca mais seria a mesma. Seu pai - um policial civil - morrera baleado no peito.

Capítulo 3

 Megan, uma mulher de vinte e dois anos - que Ely já conversara algumas vezes - , vomitou em um canto do mercado. Não aguentara a cena forte. Zoe murmurou com desgosto. Jonathan foi escorregando pela parede até sentar-se no chão, colocando a garrafa quebrada ao seu lado, sussurrando algo que, para Ely, parecera ter sido um "não acredito", provavelmente desapontado com a própria covardia.
 - Bom, pelo menos me poupou um trabalho - Tony disse, olhando para o corpo inerte da mulher que jazia no chão.
 - Você é um babaca, nojento e arrogante - disse Zoe lentamente, com uma séria expressão. Zoe era uma das poucas que já vira muitos infectados de onde viera. Era o que Ely pensava: "por que existem tantos infectados pelo mundo e mal os vemos atualmente? Talvez a infecção não tenha se espalhado tanto e as pessoas estejam seguras em outras cidades". No início da epidemia, Ely testemunhou um grande número indecifrável de infectados pelas ruas, chorando com as cabeças baixas, gritando e correndo. Ely mal notara suas características. Eles moviam-se rapidamente, estavam sempre perturbados e apresentavam tamanha insanidade. Há quatro meses, os infectados começaram a desaparecerem lentamente, mas todos sabiam que tinham de ficarem atentos, caso houvesse um ataque surpresa.
 Depois de minutos que, para Ely pareceram horas, Zoe concluiu:
 - Ela, pelo que já vi, é uma recém infectada. Não me surpreende que estivesse com as mãos sobre o queixo. Nunca entendi isso.
 Ely lembrou-se subitamente - como um flash de memória - , sobre o que Zoe dissera - os recém infectados sempre possuíam as mãos sobre o queixo. Tony interrompeu o devaneio de Ely que, de um salto, voltou ao mundo real.
 - Vamos esquecer o que aconteceu aqui. Estão de acordo? - perguntou Tony e, rapidamente, todos concordaram. Ele ainda contemplava a mulher morta.
 Zoe murmurou algo que parecia ser um "insensível".
 - Então - Tony continuou - , Lewis, você vai me ajudar a levar essa maluca morta para a rua e tocar fogo nela. Os outros... podem arrumar um canto qualquer para passarem a noite aqui e, amanhã, vamos fazer a limpa no que sobrou desse lugar que possa ser útil.
 Ely - assim como Zoe, que possuía um expressão incrédula - , não conseguia acreditar no que Tony dissera. Ela ficou boquiaberta com a frieza e calma de Tony diante àquela situação. Porém, sem nada para fazer, retirou um pequeno cobertor da mochila e acomodou-se em um dos cantos do mercado. Ela olhava por uma parte faltando do teto - um lindo céu estrelado, uma das poucas boas paisagens nos dias atuais. Estava escurecendo rapidamente, Ely percebeu. Logo ela estava em um profundo devaneio, como uma máquina do tempo viajando ao passado.

Capítulo 2

 Depois de uma hora andando pela estrada, em busca de um local seguro para ficarem, pararam para tomar água e descansarem um pouco. Neste trecho da estrada, haviam alguns carros consideravelmente amassados e com pneus furados.
 Ely tirara sua garrafa de água de sua mochila e sentara-se no capô do carro mais próximo para descansar.
 - Isso é engraçado, sabe? - comentou Joseph se aproximando. - Andar sem rumo pela estrada.
 - Me sinto uma inútil - disse Ely. - Eu já poderia ter partido, só preciso de suprimentos.
 - Eu não, nós - disse Joseph, com uma séria expressão e uma pontada de preocupação no olhar.
 Apesar da aparente coragem, Ely tinha muito medo, mas dizia frases que demonstravam coragem impulsivamente. Ely pensava que seu maior medo, na verdade, era ficar sozinha. Tantas coisas horríveis aconteceram e, em meio àquilo tudo, ela tinha algo pelo qual lutar. Sabia disso.
 Via-se à distância um pequeno mercado com telhas quebradas. As paredes estavam consideravelmente sujas e a tinta do letreiro apagando-se com a obra do tempo. Tony notara e, em seguida, gritou para o grupo:
 - Ei! Acho que é nosso dia de sorte! - soltou uma risada grotesca, apertou as alças da mochila contra os ombros e correu em direção ao mercado. Logo o grupo foi atrás do líder, enquanto Ely e Joseph ficaram para trás.
 - É a nossa chance de sair de perto deles! - disse Joseph em alto tom de voz. Ele já ia se preparando quando Ely interrompeu:
 - Não! - ela negou. - Vamos segui-los até o mercado, pegar alguns suprimentos sem sermos notados e, quando tivermos a oportunidade, vamos vazar pra bem longe desses panacas!
 - Boa ideia - concordou Joseph, e os dois seguiram para o mercado.


 Tony estava à porta do mercado, planejando com o grupo uma maneira de se defenderem, caso houvesse um imprevisto.
 - Quando eles chegarem perto - se ao menos tiver algum deles - , deem com o primeiro primeiro pedaço de pau que acharem no chão no meio da cabeça deles! Vamos lá! - e com um um forte chute, escancarou violentamente a porta do mercado que, com um estrondo, chocou-se contra a parede. Tudo estava silencioso. Nenhum sinal deles.
 Tony deu um passo à frente e, no mesmo momento, ouviu-se um ruído vindo do depósito.
 - É um deles! - disse Tara, com um tom de voz exageradamente alto e trêmulo. Tara era uma jovem de aparência delicada, com longos cachos negros e olhos escuros. Com certeza, era a pessoa mais amedrontada do grupo e, por esse motivo, Ely não simpatizava muito com ela. Não que Ely não fosse medrosa, mas não era o tipo de pessoa que gostava de fazer escândalo.
 Um dos garotos do grupo - Jonathan, um jovem de cabelos negros, cacheados e notavelmente sujos - , pegou uma garrafa de vidro e a quebrou na prateleira mais próxima, para usá-la como arma se fosse preciso. O som alto do vidro quebrando fez com que Ely desse um salto.
 - Vocês são muito burros! - disse Zoe irritada - uma jovem de cabelos loiros e bem tratados, apesar de tais circunstâncias. - Se fosse mais de um deles, estariam fazendo muito barulho com a nossa chegada. Talvez seja um recém infectado.
 - Tem razão, loirinha - Tony disse. - Deixem comigo. - Pegou um dos pedaços de madeira solta da prateleira mais próxima e encaminhou-se para a porta do depósito. 
 Todos pararam ao ouvirem um novo som vindo de lá. Sons que pareciam um choro -  um murmúrio baixo - , vinham do que Ely pensava ser uma mulher no interior do depósito. Uma mulher aparentemente sofrendo.
 - Vai logo! - gritou Zoe impaciente para Tony.
 Ele colocou a mão na maçaneta da porta e lentamente a girou. Ao abrir a porta, aos poucos a luz fraca do mercado iluminava o interior do escuro depósito. Lá dentro, encontrava-se uma mulher de cabelos sebosos e desgrenhados, que estava de costas para eles, chorando com as mãos cobrindo seu rosto. Tony se aproximava lentamente em direção à mulher, com um  dos braços estendidos para tocar seu ombro. Subitamente, ela virou-se para o grupo. Estava com o rosto ensanguentado e cobria algo sobre seu queixo. Ela gritou. Um som horrível que torturou os ouvidos dos ali presentes. Logo a mulher correu em direção a eles. Jonathan - agora com uma notável expressão de assombro - , desviou-se da mulher que parecia querer agarrá-lo. Mas ela não o fez. Ao invés disso, correu rapidamente, com a cabeça abaixada e a bateu fortemente contra a parede à frente. Rapidamente, a mulher tombou com o corpo encolhido para o lado. Sangue escorrendo sobre seu rosto, e as mãos ainda cobrindo seu queixo. Todos ficaram imóveis ao assistir a cena. 
 A mulher suicidara-se.

Capítulo 1

 Lá estava ela, longe de todos. Tentando desesperadamente acordar daquele maldito pesadelo. Sentada em um tronco de árvore e saboreando seu cereal vencido há quatro meses. Claro que, em tempos como aquele, estava sempre alerta, olhando para os lados a cada um minuto. Os únicos pensamentos que passavam por sua cabeça eram o medo, o frio e a vontade de comer algo que não tivera passado do prazo de validade. Mas, mesmo assim, aquele cereal se tornara bom, comparado a outras coisas que tivera de comer.
 Sua pele já não era a mesma de antes. Há pelo menos três meses, ela possuíra a pele de uma linda jovem de dezessete anos, mas agora, aparentava ter três anos a mais. De qualquer modo, não deixara de ser uma jovem bonita, com delicados cachos castanhos e algumas sardas no nariz e bochechas. Porém, as marcas do medo e de sua insônia não a perdoaram. Agora, possuía olheiras e bolsas abaixo dos olhos e, é claro, uma expressão séria e humor reduzido.
 Mesmo que estivesse com um casaco revestido de lã, calças quentes e botas, passava por realmente muito frio. Nesse momento, pensava ela, seu namorado fazia falta. Se estivesse vivo, estaria contando-lhe uma piada. Tentando arrancar um sorriso de sua namorada. Mas ele não estava ali. Virou jantar daquelas malditas pragas, e ela viu todo o ocorrido.
 Em meio a estes pensamentos, levara um susto ao notar a presença de alguém ao seu lado. Culpou-se por voar em tantos pensamentos horríveis a ponto de não notar a presença de alguém. E se fosse uma daquelas coisas? 
 - Joseph! - exclamou ela. - Nunca mais faça isso!
 Joseph tornara-se seu melhor amigo há pelo menos cinco meses, quando todos ainda estavam desesperados, procurando por um refúgio seguro.
 - Desculpe - disse ele. - Não queria atrapalhar seu devaneio.
 - Tudo bem, mas nunca mais faça isso, por favor.
 - Ely - Joseph começou - , não acha estranho? Tudo acabar em tão pouco tempo?
 - Já conversamos sobre isso - a irritação era visível na expressão de Ely. - Vê se para! Ficarmos voltando nesse assunto dezenas de vezes só vai piorar as coisas.
 - Não há muito para conversarmos, então sempre me vem à cabeça esse tipo de pensamentos - Joseph possuía uma tristeza evidente em seu olhar. - Não dá para simplesmente fingir que nada disso está acontecendo. Em cinco meses convivendo juntos, estou cansado de conversar sobre o tempo ou coisas do tipo - agora possuía uma expressão irritada. 
 - Para falar a verdade - Ely começou - , eu estava pensando sobre isso tudo também. Foi tudo tão rápido. O tempo está passando tão rápido. 
 - Tivemos menos de dois meses para fazermos entrar em nossas cabeças sobre todos que gostávamos estarem mortos.
 - Eu ainda tenho esperanças - Ely suspirou. - Quem sabe elas estejam vivas? Estejam a salvo em um refúgio seguro, deitadas e quentinhas com seus cobertores? 
 Através dos óculos de Joseph, percebera-se que uma profunda tristeza o consumira. Logo afastou-se de Ely, deixando-a sozinha com seus pensamentos perturbadores. Joseph não queria ver a amiga com falsas esperanças e se decepcionando com as respostas de suas perguntas.


 - Ei, molengas! Tá na hora de botar o pé na estrada! - gritou Tony, o líder do grupo.
 Ely arrumou suas poucas coisas e colocou sua mochila nos ombros.
 Logo o pequeno grupo de doze pessoas iniciara sua longa caminhada à procura de um abrigo seguro e, quem sabe, alguns suprimentos. Ely diminuiu o passo para ficar ao lado de Joseph, que estava logo atrás.
 - Só estou esperando conseguir suprimentos e vou ir para bem longe dessa gente - disse ela sem ânimo. 
 - Ely, você não vai sobreviver um dia sozinha e sem rumo! - protestou Joseph.
 - Vou estar sozinha, mas sem rumo não.
 - Você não está pensando em ir para Washington sozinha, não é? - perguntou ele espantado. Depois de uma longa pausa, continuou. - Mesmo que tenha um carro, você vai levar uns três ou quatro dias para chegar lá! Talvez mais! E se um imprevisto acontecer!?
 - Fale baixo! - protestou Ely em um sussurro. - Quanto mais tempo demorar com o grupo, mais tempo vou demorar para chegar em Washington. Estamos indo na direção contrária! Preciso me apressar.
 - Nem pensar! Eu vou junto! - protestou Joseph. - Você só está sendo egoísta. Na verdade, sei que morre de medo daquelas coisas!
 - Você tem certeza de que quer fazer isso? - perguntou ela com esperança no olhar.
 - Claro! Prefiro ir com você e fazer algo pela vida. É mesmo uma opção bem melhor do que andar sem rumo por aí com esse bando de babacas. Talvez nunca mais nos víssemos se você partisse.
 Ely sorriu. No fundo, ela não queria ficar sozinha, e muito menos deixar o melhor amigo para trás. Com a pouca experiência que tinha, seria mesmo melhor que estivesse acompanhada. Nem mesmo Ely sabia de onde surgira tal acesso de coragem. Ela realmente sabia que era uma menina fisicamente fraca e medrosa. De qualquer modo, ela seguiria seu caminho. E com seu melhor amigo.
 - Tudo bem - ela disse sorrindo. - Vamos nos preparando então. 
 E juntos seguiram pela estrada com o grupo.